Arquivo do autor:Dulce Miller

‘A primeira vez’ #Poesia 20

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A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou mexendo.

De lá para cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá para cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.

[ Affonso Romano Santanna]

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Da esperança #Poesia 19

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A esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe a crença. Vão-se sonhos nas asas da descrença, voltam sonhos nas asas da esperança…

Augusto dos Anjos

Estranhezas #Poesia 18

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Esse estranho que mora no espelho
(e é tão mais velho do que eu!)
Olha-me com o jeito
de quem procura adivinhar quem sou eu.

| Mário Quintana |

Conta-me outra vez – Poesia #17

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Conta-me outra vez, é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-la.
Repete-me outra vez que o casal
da história foi feliz até morrer,
que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam os beijos todas as noites.
Conta-me mais mil vezes, por favor:
é a história mais bela que conheço.

| Amália Bautista  – Cem poemas de Amor de outras línguas) |

Quem é normal? #Poesia 15

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”Os extrovertidos são julgados normais. 

Quanto aos introvertidos, chegam a submetê-los a tratamento. 

Mas para curá-los de quê? 

De não poderem ser chatos, como os outros?”
(Mário Quintana)

 

Eros e Psique – #poesia 14

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Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada.

 

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.

 

A Princesa Adormecida,

Se espera, dormindo espera,

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

 

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado,

Ele dela é ignorado,

Ela para ele é ninguém.

 

Mas cada um cumpre o Destino

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

 

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora,

 

E, inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.

 

[Fernando Pessoa]

 

Quem disse que não é possível contar uma estória através da poesia?

Dos amigos – #Poesia 10

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!…

Vinicius de Moraes

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Mais um ano, menos um ano… Poesia #7

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Eu te desejo um Norte
que é pra teres um caminho, um lugar, um objetivo, um sonhar…
E uvas, que é pra vida ser doce e atrair um bocado de sorte.

Eu te desejo muitos dias recheados de amor e poesia
E uvas, que é pro teu sorriso ter cor e sabor.

Eu te desejo o melhor.
Hoje, amanhã e sempre,
porque meu coração (não senhor!) não guarda rancor.

E tu, se puderes, me faz um favor:
me deseje também o bem,
que a gente (sabia?) só colhe o que tem.

E apesar de todos os (a)pesares
Eu te desejo ALEGRIA.
Porque sem ela, nem o sofrer teria razão de ser.

Eu te desejo tudo que há de mais sagrado em mim:
eu te desejo VIDA.

 

| Dulce Miller | 🙂 Desejamos um Feliz Ano Novo a TODOS!

 

 

Poema de Natal – Poesia #6


Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


| Vinicius de Moraes |

Desejamos um feliz Natal para todos e que seja de muita PAZ!

Intervalo Amoroso- Poesia #4

 

Cristina Bertuzzi  donna 1- acrilico su carta

Deixa que eu te ame em silêncio.
Não pergunte, não se explique, deixe
que nossas línguas se toquem, e as bocas
e a pele
falem seus líquidos desejos.

Deixa que eu te ame sem palavras
a não ser aquelas que na lembrança ficarão
pulsando para sempre
como se amor e vida
fossem um discurso
de impronunciáveis emoções.

| Affonso Romano de Sant’Anna |