Dos amigos – #Poesia 10

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!…

Vinicius de Moraes

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Ana C. – Poesia #9

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Noite de Natal

Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
Com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
Transar aos 45 anos
Entretanto sou moça
Estreando um bico fino que anda feio,
Pisa mais que deve,
Me leva indesejável pra perto das
Botas pretas
Pudera.

(Ana Cristina César)

:: Eu tinha separado esse poema para o Natal, mas fiquei sem conexão boa durante toda a viagem de fim de ano. Mesmo retardatária, o Natal de Ana C. vale sempre. 🙂

Momentos felizes – Poesia #8

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Epigrama nº2

És precária e veloz, Felicidade.
Custas e vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo persiste.

(Cecília Meireles)

:: Em tempo: Feliz 2016!!! Um ano bem querido pra nós.

Mais um ano, menos um ano… Poesia #7

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Eu te desejo um Norte
que é pra teres um caminho, um lugar, um objetivo, um sonhar…
E uvas, que é pra vida ser doce e atrair um bocado de sorte.

Eu te desejo muitos dias recheados de amor e poesia
E uvas, que é pro teu sorriso ter cor e sabor.

Eu te desejo o melhor.
Hoje, amanhã e sempre,
porque meu coração (não senhor!) não guarda rancor.

E tu, se puderes, me faz um favor:
me deseje também o bem,
que a gente (sabia?) só colhe o que tem.

E apesar de todos os (a)pesares
Eu te desejo ALEGRIA.
Porque sem ela, nem o sofrer teria razão de ser.

Eu te desejo tudo que há de mais sagrado em mim:
eu te desejo VIDA.

 

| Dulce Miller | 🙂 Desejamos um Feliz Ano Novo a TODOS!

 

 

Poema de Natal – Poesia #6


Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


| Vinicius de Moraes |

Desejamos um feliz Natal para todos e que seja de muita PAZ!

Só o que (nos) liberta – Poesia #5

POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expe-
[diente protocolo e manifestações de apreço
[ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no
dicionário
[o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os enumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítco
Do lirismo que capitula ao que quer que seja for a de si
[mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
[exemplar com cem modelos de cartas
[e as diferentes maneiras de agradar
[às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação

(Manuel Bandeira)

Intervalo Amoroso- Poesia #4

 

Cristina Bertuzzi  donna 1- acrilico su carta

Deixa que eu te ame em silêncio.
Não pergunte, não se explique, deixe
que nossas línguas se toquem, e as bocas
e a pele
falem seus líquidos desejos.

Deixa que eu te ame sem palavras
a não ser aquelas que na lembrança ficarão
pulsando para sempre
como se amor e vida
fossem um discurso
de impronunciáveis emoções.

| Affonso Romano de Sant’Anna |

 

(in)Precisos – Poesia #3

AMOR QUE MORRE

O nosso amor morreu… Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta.
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre… e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia…

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer
E são precisos sonhos pra partir.

Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
Doutro amor impossível que há de vir

(Florbela Espanca)

E são precisos sonhos pra partir.

Comunicado – Poesia #2

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Só por hoje

vou rasgar os códigos.

Desacato as regras,

os preços módicos.

Só por hoje

desacredito das retas,

descarrilho do trilho,

desvio das setas.

Preciso de tempo pra sonhar,

respirar fundo e carregar na mão

o sal da vida e o mel do mundo.

Se o compromisso tocar a campainha,

peço que aguarde na casa vizinha,

mansamente, sem fazer alarde.

Mas comunico a todos pela imprensa

que sumiu a lucidez.

Pediu licença.

É só por hoje,

mas agora é minha vez.

 

| Flora Figueiredo |

Em nós – Poesia #1

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em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós
o p que
no pequeno &
se esconde
eu sei por q
só não sei
onde nem e
sobre a mesa vazia
abro a toalha limpa
a mente tranquila
palavra mais linda
aqui se acaba
a noite mais braba
a que não queria
virar puro dia
somos um outro
um deus, enfim,
está conosco

(Leminski)

“e só quando
estamos em nós
estamos em paz”